Turista é mordido por tubarão em Fernando de Noronha

Um homem teve a mão e parte do antebraço direito arrancados por uma mordida de tubarão quando fazia snorkel na praia do Sueste, em Fernando de Noronha, no fim da tarde de segunda-feira (21).

O acidente teria ocorrido por volta das 17h45 segundo fontes ouvidas pelo Estado. A vítima é um turista do Paraná de 33 anos, segundo nota oficial divulgada pela administração da ilha. Ele foi levado para o Hospital São Lucas (o único da ilha), onde recebeu atendimento de emergência, com o apoio de um cirurgião, um ortopedista e um anestesia que também estavam no local à passeio. Sua condição de saúde era estável e ele foi transferido de manhã numa UTI aérea para o Hospital da Restauração, no Recife.

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Localização e vista da Baía do Sueste. Crédito: Imagem Google Earth/Foto de Ana Sacoman/Edição de Herton Escobar/Estadão

A Baía do Sueste ficará interditada para banho nesta terça-feira (22). “O engenheiro de pesca Léo Veras obteve uma autorização especial para mergulhar no local hoje. O Instituto Chico Mendes de Biodiversidade irá proceder investigação, convidando especialistas, pesquisadores de tubarões, para contribuírem no caso”, diz uma nota divulgada pela administração da ilha às 6h30.

Suspeita-se que a espécie envolvida no incidente seja um tubarão-tigre. Não há informações, por enquanto, sobre o que teria motivado o ataque — por exemplo, se o homem tentou interagir com o animal de alguma forma, ou foi atacado de surpresa. O Sueste é uma praia conhecida por suas águas rasas e tranquilas, que atraem um grande número de tartarugas marinhas, e por isso é um local muito procurado pelos turistas.

Ataques de tubarões são extremamente raros em Fernando de Noronha (este talvez seja o primeiro), apesar do grande número de banhistas e mergulhadores que visitam a ilha regularmente. O tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier) é uma espécie particularmente mais agressiva.

“Para que se possa entender o incidente é fundamental reunir o máximo de detalhes possível, incluindo a profundidade e distância da praia onde ele ocorreu; hora do dia e condição da maré; situação da vítima (se sozinho ou acompanhado de mais pessoas) e seu comportamento na água (conversei com diversos moradores da ilha e há pelo menos um relato de que o banhista teria chutado o animal, talvez inadvertidamente)”, disse ao Estado o ambientalista José Truda Palazzo Jr., coordenador da campanha Divers for Sharks e um dos responsáveis pela criação do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, em 1988. “O caso é raríssimo, inédito mesmo em Noronha. O melhor que se pode fazer nesse momento é estudar o incidente da forma mais detalhada possível para tentar entendê-lo.”

Tubarão-tigre é uma das espécies mais agressivas de tubarão, frequentemente envolvida em ataques em outros lugares. Não costuma se aproximar da costa em Fernando de Noronha. Foto: Albert kok/Wikipedia
Tubarão-tigre é uma das espécies mais agressivas de tubarão, frequentemente envolvida em ataques em outros lugares. Não costuma se aproximar da costa em Fernando de Noronha. Foto: Albert kok/Wikipedia

Leia mais abaixo entrevista completa com José Truda (ambientalista, coordenador da iniciativa Divers for Sharks)

1) Quais espécies de tubarão ocorrem em Fernando de Noronha, e em que quantidade/abundância?

Como arquipélago oceânico, Fernando de Noronha tem uma grande diversidade de espécies de tubarões. São muito comuns o lambaru, o tubarão-limão, o bico-fino (que é raro em outros lugares), e raros os grandes oceânicos como o tigre e espécies de martelo, dentre outros. Tubarões-baleia são visitantes ocasionais. Não existem censos detalhados para cada espécie.

2) Há registros de ataques na ilha? Caso positivo, quais foram as circunstâncias desses ataques?

Do nosso conhecimento esse é o primeiro incidente documentado em Noronha, lembrando que dezenas de milhares de banhistas e mergulhadores frequentam o mar do arquipélago anualmente há muitas décadas.

3) Algo particular com relação à Baía do Sueste que a torne mais ou menos propensa a encontros com tubarões?

É surpreendente que esse incidente tenha ocorrido ali. O Sueste é um dos locais mais tranquilos para praticar snorkel em Noronha, com a presença regular dos tubarões-limão. Eu mesmo nadei ali inúmeras vezes na presença de tubarões de porte pequeno e médio, sem nunca ter me sentido ameaçado. Na data e hora do ocorrido aparentemente havia um grande número de outros banhistas e praticantes de snorkel no local, sem qualquer problema.

4) Quais são as informações mais importantes que precisam ser levantadas/esclarecidas sobre esse ataque?

Para que se possa entender o incidente é fundamental reunir o máximo de detalhes possível, incluindo a profundidade e distância da praia onde ele ocorreu; hora do dia e condição da maré; situação da vítima (se sozinho ou acompanhado de mais pessoas) e seu comportamento na água (conversei com diversos moradores da ilha e há pelo menos um relato de que o banhista teria chutado o animal, talvez inadvertidamente). E, claro, se possível identificar a espécie e tamanho estimado do animal.

5) Caso o homem tenha sido atacado “sem motivo” (sem ter tentado tocar ou alimentar o bicho, por exemplo), o que isso significa? A praia deveria ser interditada? Alguma medida de segurança deveria ser tomada?

O caso é raríssimo, inédito mesmo em Noronha, e a interdição de atividades talvez seja uma medida prematura. O melhor que se pode fazer nesse momento é estudar o incidente da forma mais detalhada possível para tentar entendê-lo. Vale talvez alertar para que os visitantes do Sueste permaneçam em áreas mais rasas e monitorar o local para detectar a presença de grandes tubarões, o que é raro em todo caso. Um estudo dos fatos pode recomendar outras medidas preventivas.

6) Um evento como esse pode gerar pânico na população e reforçar a imagem dos tubarões como animais perigosos e indesejados. Como lidar com esse tipo de risco?

É preciso frisar que esse é um caso raríssimo, e que os tubarões matam menos gente todo ano no mundo do que cachorros, abelhas ou queda de cocos na cabeça — e nem por isso acabamos com os cachorros, abelhas ou coqueiros. Eles são animais essenciais ao equilíbrio dos oceanos e um grande atrativo turístico. Apesar de incidentes com tubarões terem acontecido no Brasil, em uma pequena faixa de costa no Recife, estes também muito raros considerando os milhões de banhistas na água em nosso litoral. Precisamos ter a consciência de que no mar estamos entrando em contato com a natureza selvagem e precisamos encarar o risco, mesmo que mínimo, desse tipo de evento. Devido à sobrepesca desses animais pelo Brasil afora, Fernando de Noronha é o último lugar do Brasil onde se pode mergulhar regularmente com tubarões — um dos maiores atrativos do mergulho recreativo no arquipélago — sem que nunca tenha havido até agora incidentes graves registrados. Por isso mesmo, defendemos que eles continuem sendo integralmente protegidos ali, e que trabalhemos visando a prevenção e minimização de riscos investigando as reais circunstâncias desse triste caso.

Fonte: Estadão

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