Globo retalia avanço da Record com ofensiva no digital: “É uma corrida do ouro”

Com mais de 2 milhões de downloads em um mês, aplicativo Globo Play intensifica no online uma disputa que já se encontra acirrada na televisão. “Competição se intensifica”

A sensação é de que nunca se falou tanto em audiência quanto em 2015. O ano em que a Record mais do que ameaçou, mas venceu a Globo no horário nobre diversas vezes em praças valiosas como Rio e São Paulo com a novela “Os Dez Mandamentos”, gerou bastante comoção na mídia como um todo. Na surdina, porém, uma guerra muito mais providencial está sendo travada entre as emissoras. E o campo de batalha é a internet.

Globo Play II

No final de outubro, a Globo lançou o aplicativo Globo Play e o serviço de vídeo sob demanda da emissora completou um mês com mais de 2,5 milhões de downloads. Um sucesso que ajuda a entender porque tanta gente diz que o futuro da TV está na internet. O R7 Play, da Record, foi lançado a pouco mais de um ano. Procurada pela reportagem, a emissora disse que não divulga dados sobre o desempenho de sua plataforma de vídeo sob demanda. Postura semelhante, por exemplo, adotada pelo Netflix.

Audiência em crise
A Record, no entanto, foi além e disponibilizou a novela “Os Dez Mandamentos” no Netflix, em um movimento que busca expandir o público da novela para além dos espectadores usuais da emissora.

Toda essa movimentação é um reflexo da queda contínua de audiência da TV aberta tradicional. Números do Ibope demonstram que a novela das nove registra menor audiência do que há dez anos porque há menos gente sintonizada em canais abertos no horário. O share (número de TVs ligadas no programa/número de TVs ligadas) diminuiu. Em cinco anos, a Globo perdeu cerca de 3 pontos na média e suas principais rivais, SBT e Record, 2.5.

“Vivemos uma espécie de ‘corrida do ouro dos OTTs (distribuição de conteúdo audiovisual online)’, observa ao iG o diretor de mídias digitais da Globo, Erick Brêtas. “Agentes de vários segmentos da indústria de mídia lançam novos serviços e a competição pela atenção do consumidor se intensifica”.

Para Brêtas, esse é um movimento global que no Brasil se mostra menos acelerado, mas ainda assim consonante com o que ocorre lá fora. “Nos Estados Unidos, assistimos a um forte movimento de desintermediação que muda a correlação de forças entre produtores e distribuidores de conteúdo. O mercado brasileiro, naturalmente, tem diferenças importantes em relação ao americano no que diz respeito à infraestrutura de banda larga, renda e hábito dos consumidores, mas é possível dizer que estamos indo na mesma direção, ainda que não na mesma velocidade”.

A projeção está correta. Todos os grandes canais abertos dos EUA já dispõem de plataformas de vídeo sob demanda e mesmo canais fechados como a HBO estão disponibilizando seu conteúdo premium em um pacote à parte para quem não assina o canal pelas vias tradicionais.

Complemento da TV linear
Não se trata, porém, de um “efeito Netflix”. “A semelhança entre Globo Play e Netflix está no fato de serem dois OTTs. E termina aí. O Globo Play é um produto que estende e complementa a programação da TV linear. Para os fãs de nossas novelas e séries, ele traz conforto e flexibilidade”, contextualiza o homem que manda na estrutura de mídias digitais da emissora do grupo Roberto Marinho.

Reprodução Twitter
Montagem que circula pela internet brincou com o braço-de-ferro pela audiência em que o seriado produzido pela Record atropelou o maior telejornal da arquirival – Reprodução: Twitter

A consolidação no digital não representa apenas a possibilidade de ofertar mais conforto para o expectador da Globo, mas também de reverter uma outra tendência. A queda de audiência do horário nobre da TV aberta em detrimento do aumento de audiência do horário nobre da TV paga.

Para isso, a produção de conteúdo exclusivo para a plataforma é uma estratégia que precisa ser considerada. “A plataforma permite que isso aconteça, mas é preciso achar modelos econômicos que tornem essas iniciativas viáveis. No curto prazo, é possível que tenhamos mais experiências como o bem sucedido capítulo zero de ‘Totalmente Demais’, que teve mais de 700 mil views”, respalda Brêtas.

No final de novembro, a emissora americana FOX anunciou que não divulgará mais os índices de audiência diários do canal porque eles não são fiéis ao contingente de espectadores que, de fato, assistem aos programas do canal. Para a FOX, desconsiderar streaming e vídeo sob demanda é distorcer os índices de audiência. É uma decisão histórica que ainda não foi acolhida por outras emissoras e parece, no momento, distante de ser replicada no Brasil.

Um caminho para se estabelecer essa métrica é entender o comportamento desse consumidor senhor de sua programação. “Nem sempre o programa de maior audiência na TV é o de maior audiência no digital e vice-versa. Estamos medindo o desempenho dos nossos programas tanto em vídeo sob demanda quanto no simulcasting, a programação ao vivo da TV transmitida no Globo Play”, explica Brêtas.

O maior consumo no vídeo sob demanda do Globo Play é a dramaturgia, algo diretamente proporcional à queda de audiência das exibições na TV tradicional. “No simulcasting descobrimos que o “horário nobre” é o período do almoço, com o trio Praça TV/ Globo Esporte/ Jornal Hoje”, revela o executivo.

Smart TVs ganham aplicativo
A guerra da audiência na internet está só começando. Há poucos dias, a Globo lançou a versão do aplicativo para as smart TVs de algumas marcas. Dados divulgados pela emissora indicam que 53% do acesso à plataforma é feito por meio de smartphones, 35% via computadores dekstop e 10% de tablets.

“Queremos estar em todas as plataformas de consumo de conteúdo audiovisual relevantes. Isto é muito mais fácil de se falar do que de se fazer”, opina Brêtas. “Se contarmos tipo de dispositivo, tamanho de tela e sistema operacional, o lançamento do Globo Play está acontecendo em 11 plataformas. Manter a consistência e a qualidade da experiência em todas elas é desafiador. Mas não vamos parar por aí. Temos na nossa lista desenvolvimentos para Windows 10, Apple TV, consoles de videogame e smart TV’s com sistema operacional Android TV. 2016 será um ano de muito trabalho”, revela o executivo.

Que comecem os jogos!

Fonte: IG

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