Fim da bala Juquinha: Relembre guloseimas que deixaram saudades

Primeira bala mastigável do Brasil, com receita de origem portuguesa, a tradicional Juquinha parou de ser produzida. Fábrica foi vendida, mas não se sabe se produção ainda será mantida

Rio – Uma amarga notícia pegou de surpresa o mundo das guloseimas: a Juquinha, a mais famosa bala brasileira, exportada para pelo menos 60 países, parou de ser fabricada. A gostosa goma, que tinha o rosto de um menino lourinho como marca, reinou absoluta no mercado por seis décadas. As portas da empresa, em Santo André (SP), foram fechadas há pouco mais de um mês. No Rio, um dos principais estados consumidores do confeito, atacadistas já não têm mais estoques e nas vitrines, elas desapareceram.

Tradicional bala Juquinha não está mais nos estoques das lojas de doces do Rio Foto:  Arte: O Dia Online
Tradicional bala Juquinha não está mais nos estoques das lojas de doces do Rio
Foto: Arte: O Dia Online

O motivo do encerramento da produção da primeira bala mastigável do país seria a falta de interesse dos filhos do criador, o italiano Giulio Luigi Sofio, de 77 anos, que mora em Santo André (SP) e não quer comentar sobre o negócio, adquirido por ele do português Carlos Maia, em 1982.

Segundo alguns dos últimos 18 funcionários demitidos mês passado, porém, a maior parte do maquinário da empresa — que chegou a ter mais de 200 empregados, produzir 600 toneladas de balas por mês e ter uma receita superior a R$ 15 milhões mensais, na Avenida dos Estados, em Santo André — já foi retirada. Um empresário carioca, que não seria do ramo alimentício, teria comprado a original e ultrassecreta fórmula da bala Juquinha de tutti-frutti, guardada a sete chaves.

“O empresário do Rio veio de helicóptero a Santo André, cheio de seguranças, no final de maio. Em pouco mais de dez minutos, levou, num cofre, a fórmula”, garante um ex-empregado. A mistura clássica do mimo, foi desenvolvida por cozinheiras de Carlos Maia, que começaram a escala de produção em tachos de cobre. Maia batizou a guloseima em homenagem a Juca, um amigo português.

Na Central do Brasil, os principais distribuidores da bala Juquinha lamentaram o fim da produção. “Vendíamos 200 fardos, cada um com 20 pacotes de 700 gramas, por mês. Hoje (sexta), temos menos de 50 pacotes nas prateleiras”, diz o gerente da Cia do Doce, Paulo dos Santos. “É uma pena. Herdei essa loja (Esplendor, na Lapa) dos meus pais, há 34 anos. A Juquinha era a bala que mais saía”, lamentou.

O aposentado José Alves, de 78 anos, diz que a bala Juquinha vai deixar saudades. “Quem não se lembra da famosa frase?: ‘quer enganar, dê bala Juquinha’. Ou seja, era a forma mais simples e divertida de se acalmar uma criança. Até hoje eu usava esse argumento com meu neto Olavo, de 4 anos”, diz. Agora, só resta a José e aos fãs da Juquinha, uma açucarada torcida pela possível volta da fabricação da bala. Um doce mistério.

Fórmula secreta

A Balas Juquinha Indústria e Comércio Ltda foi fundada em 1945 com uma outra razão social: Salvador Pescuma Russo & Cia Ltda. No início, dedicava-se apenas à fabricação de refresco em pó efervescente. Cinco anos depois, a empresa começou a fabricar balas mastigáveis. Pouco depois, a ‘docíssima e mole’ Juquinha virou febre no País, conquistando rapidamente o mercado.

O sucesso da tão falada bala foi ampliada ainda mais com Giulio Sofio na direção do empreendimento, comprado através de um simples anúncio num jornal, colocado por Carlos Maia, que, em 1979, atolado em dívidas, acabou vendendo para o italiano, a receita mágica, que deu origem a outros sabores como uva, abacaxi e coco. Atualmente, até os ex-funcinários foram orientados a não dar entrevistas sobre a delícia.
Um antigo funcionário conta que, quem ousava bisbilhotar e tentar descobrir a composição da fórmula, era demitido. “Muitos ‘espiões’ foram descobertos e mandados embora ao longo dos 30 anos. O segredo sempre foi o principal pilar de sobrevivência da empresa”, diz X., 56 anos, desempregado desde abril. “Nem sei se sei fazer outra coisa. Só bala”, lamenta, preocupado com o futuro.

O auge das vendas ocorreu em meados da década de 90, quando, durante o então Plano Real, as balas Juquinha viraram troco nos supermercados, bares e restaurantes. “Naquela ocasião faturei três vezes mais que agora”, disse Giulio, em entrevista a uma revista de ecnonomia em 2005.

Desde então, o faturamento da fábrica caiu para R$ 8 milhões, passando sua produção de 600 toneladas por mês para menos de 100 toneladas. E veio registrando queda através dos anos, assim como o número de empregados. Em abril deste ano, conforme testemunhas, somente 18 pessoas operavam a linha de produção, que tinha modernos maquinários. Metade das balas era destinada ao mercado externo.

Segundo especialistas, a queda é atribuída, especialmente, a dois fatores: a falta de interesse dos descendentes de Giulio para tocar os negócios no ramo, e a competitividade no mercado. “A clandestinidade no setor atualmente alcança mais da metade da produção de balas, pirulitos e doces. Como competir com produtos até 40% mais baratos, embora tenham qualidade duvidosa? Os fabricantes informais não pagam impostos e por isso assumem cada vez mais a liderança de vendas”, justifica o economista Jaiber Assumpção.

Outras guloseimas esquecidas

Os mistérios que envolvem a transação da venda da marca Juquinha, parecem coisas de cinema. E é como num filme romântico e nostálgico que muita gente se lembra de outras balas e doces que fizeram parte de suas infâncias e que hoje não existem mais. Alguns produtos, como o Cliclete Ping-Pong da década de 70, foram até reeditados, mas nunca alcançaram o sucesso dos originais.

“Só de lembrar dos papéis de algumas balas, me vêm na lembrança coisas boas.Às vezes sinto até o cheiro das balas”, diz o estudante de administração, Rafael Alves, 44 anos, ao se referir à bala Soft. “Era uma delícia, mas perigosa. Quando engasgava, só socos nas costas resolviam”, lembra Rafael, às gargalhadas.

Quem não lambia os lábios por outras delícias, que sempre contrariavam a boa nutrição por causa do açúcar, mas que, no fundo, pouco importava aos jovens? É o caso do Pirulito Zorro. “Não me contentava só com um”, lembra a comerciante Judite Ferreira, 56 anos.

O eletricista Jordão Meireles, 47, enumera as “besteirinhas”, como seus pais classificavam os produtos, alguns com “gosto de remédio”. “Era viciado nas Balas Boneco, Banda, drops Dulcora e Sugus, por exemplo. Indispensáveis na minha lancheira escolar. Era atraído pelos comerciais na TV. Muitos em preto e branco”, recorda-se, mencionando os cigarros de chocolate da Pan, em que um menino simulava fumar.

Relembre bebidas e doces que marcaram época e deixaram saudades

 Relembre bebidas e doces que marcaram época e deixaram saudadesAzedo por fora e docinho por dentro, o chiclete Azedinho de Morango foi vendido nas décadas de 80 e 90 A Bala Chita surgiu em 1985, em São Paulo, e virou mania entre os jovens da épocaA Bala Soft tinha muitos fãs, mas a fabricante acabou tendo que mudar seu formato, pois era muito lisa e as crianças engasgavamLançado na década de 70, o Caramelo de Leite feito com 'leite puro' deixou saudadesCherry Coke era o refrigerante sabor cereja da Coca Cola, que chegou ao Brasil em 1994, mas a maioria apenas sentia um gosto muito mais doce que a Coca e com um final amargo, como num refrigerante diet'Tem gostinho de tutti-frutti', dizia o slogan do Minichicletes. Para tristeza de muitos, a Adams parou de fabricá-lo em 1998Lançado em 1993 pela Nestlé, o Chocolate Turma da Mônica fez a alegria das crianças que adoravam saborear a guloseima que trazia os personagens de Maurício de Souza. No Facebook tem até página pedindo sua volta Quem não se lembra do Chocolate Surpresa? Sempre com 'figurinhas' dentro, era o preferido da maioria das crianças que cresceram nos anos 80 e 90. Saiu de fabricação em 2000Polêmicos, os Cigarrinhos de Chocolate faziam o maior sucesso entre os pequenos, mas acabaram virando politicamente incorretos. Em seguida foram substituídos pelo Chocolápis O Crush foi lançado em 1916 nos EUA e fez sucesso no Brasil com seu sabor laranja, principalmente na década de 50. Atualmente suas garrafinhas são disputadas por colecionadores  Dip n' Lik ('mergulhar e lamber') veio dos Estados Unidos para o Brasil e logo virou febre. A criançada adorava mergulhar o pirulito doce no pó azedinho do saquinhoSucesso nos anos 80, a Gota Cola era o refrigerante em forma de balaGuaraná Tai foi lançado em 1979 para substitui a Fanta sabor guaranáPing-Pong foi o primeiro chiclete brasileiro a ser produzido — lançado pela Kibon em 1945. Os álbuns das figurinhas que vinham na goma eram febre nas escolasMania antes da Nutella, o Ioio Nut Crem da Visconti agradava os mais diversos paladaresAbrir a embalagem do Guarda-chuvinha de chocolate sem quebrar a ponta era difícil, mas todo mundo queria umClássico da infância nos anos de 1980 e 90, o Pirulito Zorro grudava no dente, mas era impossível não comer a bala de caramelo no palito Nos anos 90, o pirulito Push Pop fez o maior sucesso. Dava para chupar e guardar o doce para depoisO Xup Xup vinha em um saquinho plático e era febre entre os gulosos. Nos anos  de 1990 haviam duas versões dele: chocolate e doce de leite

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