Exploração e solidariedade marcam aventura de imigrante Russo que passa por dificuldades em Campo Grande

Natural da cidade de Norilsk, na Rússia, o técnico em eletrônica, computadores e sistemas de segurança, Vladimir Trubinov (42), vive uma aventura desde que deixou a terra natal em 14 de abril de 2011, com destino à Israel, à procura de tratamento para o filho Timoteu Trubinov (9), que é autista.

No país do Oriente Médio existe um tratamento pioneiro para crianças autistas, em que os especialistas acompanham toda a família, incluindo pais e irmãos durante três semanas, 24 horas por dia. O problema são os custos elevados desse tipo de tratamento: 12 mil euros (cerca de R$36 mil).

Assaf Harofeh Medical Center em Israel
Assaf Harofeh Medical Center: referência no tratamento de autismo em Israel – Foto: www.healthtoisrael.org

A família Trubinov permaneceu em Israel até que vencesse o visto de permanência. Aquela também era a alternativa que restara, dado o alto custo do tratamento de Timoteu. Antes de retornarem para Rússia, Vladimir, a esposa Olga Trubinova (36) e o filho Timoteu tiveram mais um forte motivo para lembrar de lá, além do período de tratamento do filho: a chegada de uma nova integrante da família, a pequena Abigail, que hoje tem 2 anos.

Tempos depois, a família Trubinov ouviu falar do Brasil e teve alguma esperança de que Timoteu pudesse receber tratamento mais adequado aqui. Vladimir e a esposa Olga, Timoteu e Abigail vieram então para o Brasil, em 26 de janeiro de 2014. Chegando à São Paulo (SP), a família foi inicialmente acolhida pela organização religiosa católica, Cáritas. Vladimir conta que “tiveram onde dormir e comer graças a instituição beneficente e ali começou a lhe chamar a atenção o papel desse tipo de trabalho no Brasil”.

Trabalho escravo? – A família russa conheceu então um casal de paulistas que inicialmente os acolheu e depois os convidou para “trabalhar por um período em uma fazenda em Mato Grosso do Sul, próximo à fronteira com o Paraguai”. A proposta inicialmente atraente, dada a dificuldade que a família enfrentava, tornaría-se um grande dor de cabeça.

Evitando dar mais detalhes sobre os donos da propriedade, Vladimir relatou que “a família trabalhava muito, ganhava pouco, se alimentava muito mal e ainda sofria porque o casal não queria nos deixar ir embora”. As condições descritas pelo imigrante russo seriam análogas àquelas que caracterizam o trabalho escravo. Vladimir não soube precisar a localização exata da propriedade, apenas contou que ouvia do casal de proprietários que eles “estavam a cerca de 350 km de Campo Grande, próximo à fronteira com o Paraguai”, relatou o russo.

Vladimir lembrou que o que mais o deixou preocupado foi “um excessivo interesse do casal de proprietários da fazenda pelos nossos filhos (Timoteu e Abigail)”. Com este “sinal de alerta”, o casal aproveitou a primeira oportunidade de acesso à internet – pois na fazenda não havia comunicação por telefone – para pedir ajuda a uma família de descendentes de japoneses da região, que os ajudou a deixar a fazenda em janeiro deste ano.

Campo Grande – Chegando a capital de Mato Grosso do Sul, em meados de janeiro – Olga estava esperando o terceiro filho do casal. Os russos foram novamente acolhidos por religiosos de um outro grupo beneficente católico, que lhes ofereceram abrigo por uma semana e a promessa de ajuda com cestas básicas por três meses. Finalmente, no dia 16 de maio, a família ganhou a mais nova integrante: a campo-grandense Elisabeta Trubinova nasceu na Maternidade Cândido Mariano, no dia 16.

A família Trubinov: Timoteu Trubinov (9), Vladimir Trubinov (42), Abigail Trubinova (2), Olga Trubinova (36) e a caçula campo-grandense, Elisabeta Trubinova, que nasceu no último dia 16 de maio – Foto: Oleg Kukhtinov

O nascimento da filha em território brasileiro fez com que Vladimir procurasse novamente a Polícia Federal da Capital, agora para pedir o visto de permanência definitivo no país, que já havia sido solicitado à PF em São Paulo, através de um pedido de refúgio, depois da eclosão da crise separatista na Criméia, Ucrânia, ex-república soviética, atribuída internacionalmente à ação do governo russo.

Ironicamente, o intérprete e porta-voz da família Trubinov em Campo Grande, é um ucraniano: o professor de russo e inglês, Oleg Kukhtinov, que está em Campo Grande há cinco meses e contou que aprendeu a falar português a partir de uma Bíblia que ganhou enquanto ainda vivia no país de língua eslava. “Quando começou a guerra civil no meu país, saber falar português me fez buscar refúgio no Brasil”, contou Oleg, que meses depois de chegar a Campo Grande, pôde ajudar à família de russos.

O cenário da crise entre Rússia e Ucrânia levou Trubinov a pedir refúgio ao governo brasileiro - Foto GloboNa PF, Vladimir teria sido informado que não poderia solicitar a abertura do processo de concessão do visto de permanência definitiva, “por já ter o processo de refúgio em andamento”, segundo as autoridades. Desde então, continua procurando trabalho, ainda que informal. Apesar de ter acumulado na Rússia experiências como a de diretor técnico em uma emissora de Rádio e ter trabalhado também em emissoras de TV, a sua situação ainda não regularizada no Brasil, e principalmente a barreira da língua – ainda o impedem de ter um trabalho formal.

Sonhos e solidariedade

Momentos de crise são férteis para o nascimento de sonhos. O ex-diretor técnico de emissoras de Rádio e técnico eletrônico em TV, contou que hoje alimenta o sonho de “abrir um pequeno comércio em que comercialize a típica culinária da Rússia e assim, quem sabe, nós não poderemos ajudar a pessoas que cheguem à Campo Grande na mesma situação que a minha família chegou?”, planejou.

Norilsk, Russia
Norilsk, na Rússia – Importante pólo metalúrgico, a cidade é uma das dez mais poluídas do mundo, devido à fundição de níquel e tem ainda um dos climas mais rigorosos do planeta: temperatura média de -10ºC, com mínimas históricas de -60º C. Fonte: Geoblog

Mesmo diante de toda a dificuldade enfrentada pela família Trubinov nessa longa jornada entre cidades tão diferentes – desde Norilsk, na Rússia – uma das mais frias e poluidas cidades do mundo – , até à capital de Mato Grosso do Sul – a mais arborizada capital brasileira – Vladimir não deixa de agradecer outra diferença do “clima”: o calor humano e a solidariedade de alguns campo-grandenses: “Além do grupo de caridade católico, que nos acolheu e nos ofereceu uma casa para ficarmos por uma semana em janeiro, que nos doou alimentos, ainda conhecemos um senhor, um religioso adventista – também de situação bastante humilde, que também passa por dificuldades – que alugou uma casa para nós, na região da rua Brilhante, em Campo Grande, por um ano. E ainda pagou um mês de aluguel para a família” – contou sensibilizado, sem revelar o nome do bom samaritano, que como na passagem bíblica, também permaneceu ‘anônimo’ (ainda que não para os cristãos).

Apesar do susto com a situação análoga ao trabalho escravo, Trubinov fez questão de destacar a solidariedade das poucas pessoas que o ajudaram: “No meio de tudo isso a impressão que tive é que não existe nenhuma entidade grande cuidando de pessoas em situação assim, na assistência à imigrantes que precisam de acolhimento e na ajuda em relação à questão imigratória de documentação”, lamentou.

“Vi no grupo católico que nos ajudou a tristeza de um voluntário que – ao ser procurado por moradores de rua que procuravam por comida – tiveram que lhes responder que naquele dia não tinham nada para compartilhar”, contou Vladimir. “Isso despertou em mim a vontade de trabalhar no futuro com famílias que passam pela mesma situação”, desabafou. “Campo Grande tem quantos habitantes? Oitocentos mil? Se cada habitante da cidade doasse cinco reais por mês para essas entidades, quanta gente em dificuldades não seria possível ajudar?”, idealizou.

Trubinov lembrou que “a saúde do nosso filho, Timoteu, melhorou depois do tratamento em Israel, mas atualmente ele não conta com nenhum tipo de atendimento aqui em Campo Grande”. O russo finalizou dizendo: “minha família precisa de qualquer tipo de ajuda”. E aos leitores do Página Brazil, com a ajuda do novo amigo ucraniano, Oleg, Vladimir fez um apelo para que os campo-grandenses os ajudem no que for possível: “uma oportunidade de trabalho, uma organização que ofereça assistência social e jurídica, alimentos, panelas, agasalhos, roupas de bebê, berço… Tudo é bem vindo!”, concluiu esperançoso.

Serviço: Quem quiser ajudar a família Trubinov pode ligar para os números: 67 3354-7664 (Nancy) ou 67 9148-7649 (Talita).

Silvio Ferreira

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