Delator diz a Moro que pagou propinas a Dirceu, a Duque e a Vaccari

Milton Pascowitch Foto UOLMilton Pascowitch, em longo depoimento, conta como bancou despesas milionárias de ex-ministro, como pagou US$ 380 mil por obra de arte para ex-diretor da Petrobrás e que levava ‘malinha’ com dinheiro vivo na sede do Diretório Nacional do PT.

Em um longo depoimento incisivo e sem rodeios, o lobista Milton Pascowitch, um dos delatores da Operação Lava Jato, revelou ao juiz federal Sérgio Moro nesta quarta-feira, 20, detalhes de pagamentos que afirma ter feito diretamente ao ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto na sede nacional do partido em São Paulo, e como realizou reformas a preços milionários – segundo ele, com recursos de propinas do esquema de corrupção na Petrobrás -, de imóveis do ex-ministro José Dirceu (Casa Civil). Ele relatou também como pagou uma obra de arte de US$ 380 mil para Renato Duque, ex-diretor de Serviços da estatal petrolífera, e como repassou valores para o ex-gerente de Engenharia da Petrobrás, Pedro Barusco.

Ao final da audiência, gravada em áudio e vídeo em seis partes, o delator declarou a Moro arrependimento. “Arrependimento pelos fatos e pelas atitudes que tomei nesses últimos tempos. Arrependimento de ter decidido fazer da minha vida profissional…acobertado situações dúbias, procedimentos esquecendo que o meu direito como qualquer cidadão em sociedade é estabelecido em lei e que só recentemente percebi ter me afastado desse respeito às leis.”

O rosto do delator não aparece nas imagens que a Justiça Federal no Paraná tornou públicas, como quase todo o processo da Lava Jato é público. A defesa pediu que a câmara não focalizasse Pascowitch, por isso ela ficou fixa para algum ponto no teto da sala de audiências.

O juiz perguntou ao delator se ele conheceu João Vaccari Neto. “Conheci e cheguei a passar valores para ele. Eu conheci o João Vaccari por apresentação do Renato Duque em 2009. Acho que ele (Vaccari) já havia sido indicado para a Secretaria de Finanças do Partido dos Trabalhadores. Nessa época coincidiu com o contrato de 3 bilhões de dólares relativo aos cascos repliclantes. O grupo político não era mais representado por José Dirceu, apesar de indiretamente poder ter participação.”

Pascowitch revelou repasses da ordem de R$ 14 milhões para ‘o grupo político’, dinheiro oriundo de comissões a serem pagas pelo contrato dos cascos. Parte foi para o PT, declarou. “João Vaccari necessitava de pagamentos em dinheiro e me ressarcia em contratos junto com a Engevix quando fazia doações para o partido, o diretório nacional do PT.”

Desses recursos, afirmou o delator, R$ 10 milhões foram repassados em dinheiro entre 2009 e até meados de 2011. “Eu recebia recursos 700, 800 mil reais por mês provenientes de contratos de serviços terceirizados. Muitas vezes eu saía do escritório da empresa (terceirizada da Petrobrás) e ia entregar ao senhor João Vaccari, entregava pessoalmente.”

O juiz Sérgio Moro questionou o delator se tanto dinheiro não significava um ‘volume expressivo em espécie’ e como ele fazia o transporte. “Era expressivo, mas cabia na malinha, cabia R$ 500 mil, eu entregava dentro do Diretório Nacional do PT, na sala dele (Vaccari).”

Sobre José Dirceu, preso desde 3 de agosto de 2015, o delator disse que bancou a reforma da casa do ex-ministro no município de Vinhedo, no interior de São Paulo, até 2014. O juiz perguntou a ele se não o preocupava o fato de que, em 2012, ter sido iniciado o julgamento de Dirceu no processo do Mensalão no Supremo Tribunal Federal e, mesmo assim, prosseguiu fazendo depósitos para bancar a reforma do imóvel.

O juiz insistiu, apontando depósitos de até R$ 100 mil por parte de Pascowitch já em 2013, quando Dirceu foi condenado, e em 2014, quando o ex-ministro foi preso. “Não havia preocupação, excelência”, respondeu o lobista que também chegou a ser preso na Lava Jato e, para se livrar da cadeia, fechou acordo de delação.

Pascowitch confirmou existência de contrato de fachada entre sua empresa, a Jamp Engenheiros, e a de Dirceu, a JD Assessoria e Consultoria, firmado em abril de 2011. O objetivo, segundo o delator, era ‘dar cobertura das necessidades de José Dirceu’. “Valores absolutamente desproporcionais com a necessidade dele. José Dirceu assinava contratos de R$ 20 mil por mês e as despesas dele eram de um milhão. A pressão dele e do Luiz Eduardo (irmão do ex-ministro), em alguns meses, era muito forte.”

Defesa. O criminalista Roberto Podval, defensor de José Dirceu, nega taxativamente que o ex-ministro tenha recebido propinas do esquema montado na Petrobrás. Na audiência, ele perguntou ao delator se podia definir ‘quanto cada um recebeu’. Pascowith disse. “Eu calculei a média de R$ 500 mil até 2013, no caso da Hope (terceirizada na Petrobrás), que parou de pagar antes de 2013. Eu me refiro à situação de pico. No topo era 800 e poucos mil reais, ele (Fernando Moura) recebia 180, o Duque um crédito de 300, e o José Dirceu, 240, 250 mil por mês.”

Segundo o delator, ‘a parte das outras empresas era distribuída para o Silvinho (Pereira) para fazer campanha política, acho que não chegava ao José Dirceu mesmo’.
Podval insistiu para que o delator fosse objetivo com relação ao que foi pago a Dirceu. “Só venho afirmar aquilo que eu fiz”, respondeu Pascowitch. Segundo ele, Dirceu ‘entusiasmou-se com a performance como consultor e achou que valia a pena voltar à condição de um ser político’.

O delator disse que em ‘sua opinião, José Dirceu era absolutamente alheio à administração da JD Assessoria, ele não tem qualificação para administrar empresa assim’.
O criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende João Vaccari Neto, tem reiterado que o ex-tesoureiro do PT, jamais arrecadou valores ilícitos para o partido. “Todas as captações foram absolutamente legais e repassados ao PT, com declaração à Justiça eleitoral”, afirma D’Urso. (Estadão)

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