Chile abre Copa América em caos de corrupção e protestos

Michelle Bachelet, a presidente que no seu primeiro mandato deixou o cargo com 84% de aprovação, deve estar neste momento, se é que já não o fez, pedindo encarecidamente a Dilma Rousseff uma breve consultoria de como lidar com o descontentamento popular – depois que todo mundo se acostumou com a economia de vento em poupa, e uma nítida melhora na qualidade de vida.

Presidente chilena, Michelle Bachelet Foto: Tomas Bravo / Reuters
Presidente chilena, Michelle Bachelet Foto: Tomas Bravo / Reuters

Pois é este o ambiente hoje no Chile. Enquanto os anfitriões encaram nesta noite o Equador, na abertura da Copa América 2015, a população pede a Copa da Gratuidade na educação, e se enoja com seguidos casos de corrupção.

Não que Dilma Rousseff seja a pessoa mais indicada para este “help”, mas o que assusta os chilenos, na verdade, é o fato de que caiu a ficha. Ou seja, eles, que se consideravam diferentes, talvez até de um nível superior, percebem que são mais parecidos com brasileiros e argentinos, e demais vizinhos, do que pensavam. “Corrupção não é um tema que a gente estava acostumado a debater nos bares, em casa. Existia alguma coisa. Mas aumentou muito de um ano para cá”, admitiu o professor Salazar Onofre, de uma escola de ensino fundamental de classe média da capital Santiago, enquanto protestava contra o governo.

Do país que recebeu a nota mais alta da América Latina como o mais transparente da região, ficando em 21º lugar entre 175 nações do mundo (Brasil em 69º), o Chile se afundou em 2015 numa crise política e mesmo econômica que a população não sentia desde o fim da ditadura Pinochet, em 1990. E tal celeuma foi iniciada por ninguém menos do que o filho de Bachelet, Sebastián Dávalos.

Ele foi acusado há dois meses de tráfico de influência, já que teria deliberado doações ilegais de duas mineradoras para a campanha eleitoral de 2013. Dávalos teria sido o intermediário junto ao Banco do Chile de um montante que deveria ser pago em impostos – mas que foi para a conta de sua mulher um dia após a eleição de sua mãe.

Na base do qualquer semelhança seria mera coincidência (ou não), dois dias antes do início da competição, Bachelet, que estava em Paris, viu seu secretario geral da Presidência, Jorge Insunza, em cargo que tem status de secretário de Estado, pedir demissão apenas 28 dias depois de ter assumido.

Descobriram que ele prestou consultoria, no ano passado, a Antofagasta Minerales, quando era ministro de Minas (no Chile, o ministério da Energia é separado). Depois, descobriram ainda que ele mantinha esse tipo de “consultoria alternativa” há mais de 10 anos. Chilenos como brasileiros, oras pois.

“Lamento profundamente ter criado esse problema para a presidente”, disse em pronunciamento no Pátio de Los Naranjos de La Moneda, sede do governo federal chileno. O fato é que esse é apenas mais um dos problemas de Michelle Bachelet – que de acordo com o último levantamento divulgado pelo órgão Plaza Pública Cadem, em 1o de junho, tem a pior avaliação da sua história, com apenas 26% dos chilenos considerando o seu governo atual bom/ótimo.

Agora, todos querem aprovar o quanto antes for possível a lei que impede doações de empresas privadas em campanha, mas com um projeto “à la Lei da Anistia da ditadura do Brasil”: o que foi feito, foi feito, ninguém é culpado. “Bachelet mente”, era uma das frases nas milhares de faixas que se podia perder de vista pela avenida España, um dos palcos do mega protesto da última quarta-feira, que reuniu, segundo os organizadores, 200 mil pessoas em plena tarde de um dia útil no centro de Santiago.

“Essa coisa de Copa América na minha visão é um tampão do governo para distrair a visão das pessoas, apaziguar, ou tapar mesmo a realidade que se vive no país hoje em dia”, disse ao Terra , no meio do protesto, Richard Zamorano, que está longe de viver a vida do ex-craque da camisa 9 da seleção chilena. Ele foi as ruas porque não concorda em ver o filho estudante não ter boas condições de ensino na Universidade de Chile, instituição pública.

Na última terça-feira, aliás, a Controladoria Geral da República do Chile divulgou um balanço que inflamou ainda mais a onda de protestos (dois até agora na semana): 67% de um fundo de US$ 2,3 bilhões foi destinado a universidades privadas como forma de créditos para estudantes ingressarem nas instituições.

O povo, nas ruas, quer que essa verba seja revertida para melhorias de salários, e sobretudo, condições de ensino dignas. No fundo, querem o que alguns manifestantes chamaram de Copa da Gratuidade: ensino grátis, livre e laico.

“Não vamos desistir até que haja alguma mudança nessa carreira docente, que é indecente”, ironizou Alfredo Zanillos, professor de ensino fundamental. “Precisamos de tranquilidade no dia do jogo”, confessou o técnico da seleção chilena, Jorge Sampaoli, na entrevista coletiva de imprensa na véspera da estreia. “Entendemos que os protestos são necessários e justos. Conversamos com as pessoas para que elas entendam que o descanso dos jogadores deve ser respeitado”, completou o treinador, sobre o momento do país.

Como se não bastasse todo o descontentamento popular, por fim, o Chile ainda viu o sarampo renascer no país. A doença infecciosa respiratória registrou o seu quarto caso – depois de ser erradicada em 1993. Um viajante trouxe o vírus da China e, por mais que não haja grandes alarmes por parte do governo, o caso ganha as manchetes por ser uma doença que muita gente não está imunizada – uma vez que não se registra mais casos há mais de 20 anos.

E tem ainda uma greve de motoristas de uma das empresas de transporte público do país – dois ônibus foram incendiados por grevistas em Temuco, cidade ao sul onde o Brasil vai estrear no domingo diante do Peru. Se Bachelet vai fazer ou já fez alguma consultoria de crise com suas “Hermanas”, não se sabe. O fato é que ela nunca esteve tão parecida com Dilma Rousseff e Christina Kirchner.

TERRA

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