Campo Grande: 116 anos – À sombra da figueira brava

Vista aérea do centro de Campo Grande, a partir do Horto Florestal, na confluência dos córregos Segredo (margeado pela avenida Presidente Ernesto Geisel / Norte-Sul) à esquerda, e Prosa (hoje canalizado, que flui sob a avenida Fernando Correa da Costa), à direita.

No próximo dia 26 de agosto comemora-se 116 (cento e dezesseis anos) de emancipação da Capital de Mato Grosso do Sul, Campo Grande.

Mas a história preservada dessa Cidade Morena, como é conhecida por seus habitantes, já soma 143 anos. É verdade que a região já era habitada por povos remanescentes da Guerra do Paraguai, por indígenas e quilombolas, mas a história de Campo Grande mesmo, como a conhecemos, começou com um rancho e uma pequena roça feitos por um mineiro nascido em 1825, na antiga “Arraial de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo,” hoje denominada Barbacena:  José Antônio Pereira.

Museu José Antônio Pereira, na avenida Guaicurus, região Sul de Campo Grande. Foto: Divulgação

Casado com Maria Carolina de Oliveira, Pereira resolveu desbravar as terras devolutas do antigo “Mato Grosso”. Pereira ouvira, após o fim da Guerra do Paraguai, sobre grandes planícies perfeitas para criar gado e decidiu se aventurar por aqui, organizando sua primeira comitiva.

Córrego Prosa
Córrego Prosa

Em 1872 Pereira chegou a esta região, um fundo de vale, com água abundante para a época e planícies próximas para criar gado. A região, no futuro seria chamada de arraial de Santo Antônio de Campo Grande e, bem mais tarde, apenas de Campo Grande.

O pioneiro não permaneceu imediatamente aqui. Voltou para Minas, para regressar três anos depois, no dia 14 de agosto de 1875, com uma comitiva maior formada por 65 pessoas.

Encontrou a pequena choupana construída entre dois córregos ocupada por outro mineiro, da região de Prata: Manuel Vieira de Sousa (Manuel Olivério). Olivério quis devolver as terras, mas acabou recebendo de Pereira uma proposta de parceria.

Córrego Segredo

Se tornariam amigos e depois uniriam as famílias em vários casamentos. Surgia ali à primeira geração de campo-grandenses, na confluência dos córregos que ganhariam os nomes de Prosa e Segredo. Coisa de mineiros. Como café e pão de queijo.

Lenda perpetuada pelo livro “A Rua Velha”, do historiador Paulo Coelho Machado, publicado em 1990, conta que sob uma figueira brava, as longas prosas acabariam por dar nome ao curso d´água.

Ainda segundo o livro, deves-se a um segredo sobre um suposto relacionamento proibido de Manuel Olivério – que ao ser revelado, teria sido o primeiro escândalo do vilarejo, o nome (Machado, Paulo Coelho, A Rua Velha, 1990) – o nome do segundo córrego.

Curando sob a figueira brava – Segundo historiadores, Pereira era adepto da medicina natural, quando esta expressão sequer havia sido cunhada ainda. Preparava e administrava unguentos, xaropes, chás e garrafadas. Sanava os males do povo desta terra que nascera debaixo de uma figueira brava. E morreu aqui, no 11 de janeiro de 1900, último ano do século dezenove.

Emblemático. Pereira foi atraído por esta terra “morena”, que semeou sem fazer ideia de que ela se tornaria, nos séculos seguintes, a capital de um novo estado: Mato Grosso do Sul. Sedutora, a “Morena” continuou atraindo nos dois séculos seguintes, mineiros e paulistas, gaúchos e paranaenses e brasileiros de todos as origens.

A semente plantada por Pereira e seus companheiros de comitiva deu frutos ao ponto de a população de Campo Grande se aproximar, na segunda década do século XXI, de um milhão de habitantes.

Quem diria que uma pequena choupana à sombra de uma figueira, redundaria em tanta prosa e segredos.

Silvio Ferreira

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