Bolivianos decidem se Evo Morales pode tentar reeleição mais uma vez

A Bolívia vivia neste domingo um dia tranquilo de votação para decidir se o presidente Evo Morales pode se apresentar a uma nova reeleição, o que lhe permitiria permanecer no poder, que exerce desde 2006, até 2025.

Na reta final da votação, que deve terminar às 16h locais (17h de Brasília), algumas seções não funcionavam de maneira adequada, provocando o protesto de eleitores, como em Santa Cruz (leste), onde algumas pessoas queimaram urnas e cédulas vazias.

Apesar destes incidentes isolados, a missão eleitoral da Unasul declarou em um comunicado que a “votação ocorria em um clima de absoluta tranquilidade”.

Evo Morales IIIEvo Morales votou na região de Chapare, no centro do país, e pediu “um recorde” de participação nas urnas.

“Meu grande desejo é bater o recorde de 2009, no qual participaram 96% dos eleitores. Seria um dia histórico”, declarou.

Até a semana passada, os partidários da reforma constitucional para permitir que Morales se candidate a um quarto mandato consecutivo estavam empatados. Mas as acusações que o afetam diretamente começam a mudar o panorama e, segundo pesquisas recentes, os partidários do Não (47%) superam os do Sim (27%).

Os primeiros resultados serão anunciados a partir das 18h (19h de Brasília). Mais tarde, o tribunal eleitoral divulgará os primeiros resultados oficiais.

Em uma consulta em que o voto é obrigatório, cerca de 6,5 milhões de bolivianos devem decidir sobre a reforma da Constituição, que autorizaria Morales a concorrer a outro mandato de cinco anos, de 2020-2025.

O líder de esquerda, que iniciou seu primeiro governo em 2006 e que já foi reeleito duas vezes, detém o recorde de permanência no poder desde a independência do país, em 1825.

Contudo, Morales, o primeiro indígena aimara a chegar à Presidência, foi atingido pelo escândalo do suposto tráfico de influência em favor de sua ex-mulher, Gabriela Zapata, que aos 28 anos é uma alta executiva da empresa chinesa CAMC, com contratos com o Estado boliviano no valor de 576 milhões de dólares. A Controladoria e o Congresso do país vizinho investigam o tema.

Quase duas semanas depois da denúncia, Morales reagiu em um discurso público: “Que tráfico de influências, tudo é uma montagem da embaixada dos Estados Unidos” para prejudicá-lo no referendo, declarou.

Morales também pode ser prejudicado pelas consequências de um ataque na quarta-feira passada contra a prefeitura de El Alto, em poder da oposição, que deixou seis mortos pela inalação da fumaça após os incêndios, provocados supostamente por membros do governista Movimento Ao Socialismo (MAS).

O chefe de Estado também poderia ser afetado pela onda de mudança experimentada pela região, com a aproximação entre Cuba e os Estados Unidos, os reveses sofridos por Maduro na Venezuela, Kirchner na Argentina ou pelo cansaço da população com o governo de Dilma Rousseff no Brasil.

Estes ventos começam a se sentir na Bolívia, onde a população está começando a se cansar da perpetuação do governo no poder.

“Evo Morales está ciente de que as derrotas de governos populistas de esquerda na Venezuela e na Argentina o colocam na alça de mira destas mudanças de percepção do público”, declarou esta semana à AFP o analista político Carlos Cordero.

Nos últimos anos, Morales deu poderes à população indígena, pôs fim a anos de exclusão dos agricultores pobres, ao mesmo tempo em que promoveu uma classe média que começa a lhe dar as costas, cansada de “populismo e demagogia”, acrescenta o analista.

Suas realizações econômicas e sociais parecem não ser mais suficientes para manter fiel um eleitorado que lhe permitiu vencer com muita folga as eleições precedentes.

No entanto, Morales parece estar otimista. (AFP / Istoé Dinheiro)

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