Advogada entrega pertences a detento e fica presa por desacato

A advogada Aline Gabriela Brandão, de 23 anos, foi presa na terça-feira (14) após um desentendimento com o delegado plantonista da Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Piratininga, Camilo Kettenhuber Cavalheiro. A jovem foi liberada na manhã de quarta-feira (15)..

Aline Gabriela disse que foi presa quando questionou as regras de segurança
Aline Gabriela disse que foi presa quando questionou as regras de segurança

Conforme o histórico da ocorrência, a advogada compareceu ao local na noite de terça-feira. Ela disse que entregaria os pertences a um preso, autuado em flagrante por roubo um dia antes. Na ocasião, o policial teria informado que receberia apenas materiais de higiene, já que a cela estava cheia.

Diante da informação, a advogada teria alterado o tom de voz para questionar as regras de segurança do local. Neste momento, o delegado estaria ouvindo um policial militar como testemunha de outra ocorrência. Cavalheiro interrompeu o depoimento para falar com a advogada e ela teria novamente questionado as normas do local.

“Tudo o que está descrito neste boletim de ocorrência é a mais absoluta verdade. Eu parei o relato da testemunha para atendê-la e apenas disse que seguiriam as normas do policial responsável por receber os pertences dos presos, porém ela saiu da sala gritando e fazendo ameaças. A delegacia estava lotada, foi constrangedor”, afirmou o delegado ao G1.

No entanto, conforme Aline, ela disse que não teve acesso à autoridade policial. “Eu não desacatei ninguém, até porque o meu pai é delegado e eu respeito muito a profissão. Acredito que por conta de uma representação pessoal contra o delegado, pelo crime de tortura ocorrido há cerca de um mês, é que eu passei por isso”, comentou.

Desacato

Por causa das possíveis ameaças, o delegado ressaltou que interveio na situação e deu voz de prisão a advogada por desacato. Ela teria então recebido a ordem para comparecer a sala dos escrivães, mas teria se negado. O policial então teria a segurado pelos braços.

“Eles deixaram aparecer as minhas partes íntimas. Minha bolsa ficou com uma das minhas clientes e eu disse que não poderia ficar ali. Por ser advogada, deveria ter uma cela especial, mas me transferiram para outra unidade policial e eu passei a noite em outra cela, sentada em uma cadeira. Fiquei sem comida e tinha apenas um copo de água para beber”, contou a advogada.

Logo depois, de acordo com o registro policial, o advogado Marco Antônio Ferreira Castello, presidente da comissão de defesa destes profissionais, disse que foi comunicado da prisão e iria acompanhar os procedimentos. Em seguida, a mãe da advogada também teria chegado ao local e mais uma vez a jovem desobedeceu a ordem e saiu da sala dos escrivães.

“Até o representante da OAB [Ordem dos Advogados] presenciou o abuso de autoridade. Não está correto o próprio delegado que fez um flagrante conduzir um inquérito policial. Ele ainda arbitrou uma fiança de R$ 15 mil, que é um valor que nem ele recebe por mês. Fui muito desrespeitada como mulher e profissional”, lamentou a jovem.

Representação

O delegado disse que uma representação contra ele em data anterior existe, mas é “totalmente descabida”. “A advogada está se apegando a este acontecimento para justificar a atitude que ela teve e ninguém entendeu direito até agora. Ao contrário, acredito que é ela que tem um problema pessoal comigo, pois eu nem conhecia esta jovem”, garantiu o delegado.

Sobre o valor da fiança, o delegado disse que houve um equívoco por parte dele. “Em um primeiro momento seria arbitrada a fiança, mas a soma das penas dos crimes ultrapassava quatro anos e então eu comuniquei o outro advogado sobre o fato de ser um crime inafiançável. Eu agi com isenção, imparcialidade e profissionalismo, tanto que uma advogada estava no local e ficou indignada, sendo testemunha do flagrante”, finalizou o delegado.

A investigação será conduzida pela 5ª Delegacia de Polícia. O caso foi registrado como desacato, desobediência e resistência.

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