29-07 – CORPO É SÓ UM MEIO DE TRANSPORTE

Pedro
Pedro Mattar

Meu corpo só serve de transporte pra carregar as besteiras que armazenei durante a vida. Desde que nasci venho observando minhas redondezas e acumulei vários registros que guardo no andar de cima. Quando não encontro nada mais importante pra dizer, escrevo sobre eles. É o caso.

Na fase criança, meu corpinho era carregado e não havia como determinar o rumo. Depois que fiquei autônomo passei a conduzi-lo sob o comando da minha cabeça, sempre atento as coisas pela frente.Mas trombei muito. Agora que meu corpo anda baleado, me ocorre a possibilidade de trocá-lo por outro. Não precisa ser zero, um seminovo seria suficiente.

O engenho humano e a tecnologia, nesse ritmo acelerado, bem que podiam criar uma solução viável pra substituir corpos decrépitos ou em fase de corrosão. Vamos que a cabeça torne inviável a troca total, então bastaria substituir a parte abaixo do pescoço, onde não existe nenhum setor de comando. Seria mantida a cabeça de sempre, com seu registro de dados intacto e, feita a troca do setor mais deteriorado, a parte inferior.

Você que me lê, na sua sabedoria infinita, sabe que se trocar a cabeça e colocá-la num corpo novinho, ela terá que viver tudo de novo pra saber o que é bom ou não . No meu entender, a única falha que sinto é com o desempenho do meu corpo, não da cabeça (opiniões pessoais são foda). Segundo esse critério, minha forma de pensar é perfeita, ela cresceu comigo e aprendeu os truques da sobrevivência. Tem muita merda acumulada ali, mas também tem bastante coisa aproveitável.

De que me adiantaria o corpo novinho em folha, sem o aprendizado – que me custou a vida inteira – preparado para fazer melhor uso dele. Porra, com um corpinho novo e sabendo o que aprendi muito tarde, eu seria o insuperável cão chupando manga. Se eu relacionar as oportunidades que deixei pra trás e o bom uso que não fiz em milhares de ocasiões, teria proporcionais motivos pra demitir o meu corpo e também a cabeça.

Quando meu corpinho era sarado e a energia inesgotável, minha cabeça passeava em outra galáxia, não tinha ideia do que fazer e nenhuma inspiração pra valorizar o que estava à mão, mesmo escancarado na minha frente. Esqueci de ser romântico quando deveria, me distrai diante da aventura quando minha obrigação era viajar nela, me cansei correndo sem necessidade, quando poderia ter descansado e aproveitado a pausa.

Descobri a racionalidade depois de velho e passei a frequentar um corpo esgotado de erros. É frustrante chegar em último numa maratona com milhares de participantes piores que você. Entender muito tarde que o trajeto percorrido teria sido mais proveitoso se tivesse prestado atenção nos detalhes. É uma desilusão sem volta, a sensação irreversível da derrota definitiva.

Nada substitui ocasiões oportunas não aproveitadas. Ou elas são vividas na mesma intensidade que o momento pede ou são diluídas na coluna de extraviados e perdidos.

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