27-08 – COISAS QUE DEVERIA TER FEITO OU EVITADO. E NÃO FIZ.

PedroPedro Mattar

Errei quando não aceitei a proposta de trabalhar em Londres, era jovem e aguentava porrada. Salário bom, condições excelentes e o inglês nem era tão fundamental naquele primeiro momento. O fato da namorada ter exigido que eu não trocasse Araçoiaba por Londres pintou como submissão infeliz. Depois que desmanchei com ela, ainda na campestre Araçoiaba, ela casou em seguida e virou um bujão de larga bitola. Sobrava gordura pelas laterais. Depois de quarenta anos, cruzei a semana passada com ela e me pareceu ter visto um jacaré que acabara de engolir uma anta. Não que eu seja grande coisa, mas, porra, mantenho o meu bom gosto em nivel elevado.

Mesmo tendo me livrado dessa fria, continuo puto comigo por não ter tomado decisões certas no momento que deveria. Porque enfrentar desafios é próprio da juventude, você está com as baterias carregadas e pronto pra levantar se for derrubado. Perceber, só agora, os erros daquela fase, depois de gastar energia fazendo bobagem, é de uma brochura abissal.

Não sei você, mas carrego um container de frustrações que poderiam ter sido evitadas se soubesse, na época, o que sei agora. Não é questão de acumular cultura, mas de empilhar vivência. Estou em débito com as minhas idealizações, coloquei em execução somente uma parte delas, deixando outras, bem expressivas, sem finalizar. Minha vida teria tomado outro rumo, eu poderia ser hoje um lorde inglês ou algo equivalente.

Na contramão desses raciocínios, gostaria de ter dito não a certas oportunidades inoportunas, nas quais acabei embarcando. Algumas delas ferraram minha imagem de bom menino. Que já não era essas coisas. Por outro lado foi burrice extrema não aceitar o convite daquela coroa gostosa, que me convidou para conhecer a casa onde ela morava. Minha desculpa foi o mêdo, o namorado dela era o dobro de mim. Tudo bem, o cara estava viajando, mas na minha imaginação passou aquele filme em que o traído volta da viagem sem avisar.

Poderia ter evitado aquele sentimento de ressaca mortal e inesquecível, se tivesse recusado o primeiro gim tônica, de uma serie que seguiu, na festinha de aniversário de nem me lembro quem. Tinha dezenove anos e me achava invencível. Descobri que não era. Descobri também que nem sempre é a terra que gira, mas que nós também somos capazes de girar em torno dela. Soube que gim tônica torna possível abstrair e ouvir a própria voz falando coisas incompreensiveis. Deixa pra lá.

Não dá mais pra voltar no tempo e corrigir bobagens deixadas na sua trajetória. Mudar decisões erradas ou utilizar palavras fora de contexto para explicar malentendidos. Quando você utiliza uma expressão errada tentando esclarecer um sentimento que deveria soar autêntico, não tem mais volta. A primeira palavra é a que fica, não tem bombril ou sapóleo que apague ou a traga de volta depois que saiu da boca.

Não tive como interferir quando a minha babá me raptou e a prenderam antes que ela pudesse me levar pro sítio da família dela. Era um bebê e, se ela conseguisse o que pretendia, quem sabe eu teria crescido no campo e me tornado um cantor sertanejo.
Hoje não consigo nem passar perto de uma garrafa de gim. O primeiro porre a gente nunca esquece.

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