27-06 – NÃO ADIANTA SE ESCONDER, MICOS ACHAM VOCÊ

Pedro

Pedro Mattar

Tinha uns vinte anos, por ai, trabalhava no centro, era sábado e aguardava o onibus que me levaria pra casa. Existiam vários pontos de onibus na Praça do Patriarca, uns ao lado do outro e todos com filas específicas.

Parado na fila onde aguardava a chegada do meu busão dei uma panorâmica nas outras filas e meu olhar coincidiu com uma linda garota na fila quase ao lado. Que linda, pensei, ela está sorrindo. Melhor, ela está sorrindo na minha direção. Com aquela clássica saida estratégica, disfarcei meu jeitão, olhei pra lá, depois pra cá, depois voltei meu olhar pra lindinha. Ela continuava sorrindo e, sorrindo na minha direção. Era eu.

Olhei prum lado e pro outro, tentei conferir se era para alguém atrás de mim . Não era, era comigo a coisa. Olhei pra ela e o seu olhar se abriu mais ainda. Sou um cara de sorte, pensei, a garota se encantou comigo. Sorri pra ela, fiz um biquinho ridículo com os lábios, como se mandasse um beijinho e com a mão escrevi no ar um pedido de telefone, o telefone dela, claro. Ela entendeu meu pedido e minha piscadela. O seu sorriso se ampliou ainda mais. Nesse exato momento chegou o onibus dela. Ela subiu sorrindo pra mim até sumir do meu alcance e das minhas garras. Que merda, que azar.

Intimado por minha mãe fui levá-la à noite ao aniversário de uma prima (dela), o bairro não lembro o nome. Na chegada os beijinhos de praxe, esta é a tia, este é o cunhado da tia, as filhas da tia e a prima da prima. Nesse ponto comecei a suar frio. Quem era a prima da prima? Era a gatinha da parada de ônibus, aquela coisa fofa que desapareceu dentro de um quando eu já pedia o telefone. Ela sorriu o mesmo sorriso que me deu antes de entrar no busão. Depois de cochichar com as primas e me perguntar cheia de ironia. “Oi, primo, não lembra de mim, né, seu onibus demorou? Você pelo menos estava alegrinho, né ”. Era minha prima a fofa desgraçada, tirando uma em cima de mim. A última vez que a ví ela tinha cinco anos, como poderia advinhar que tinha se transformado naquele mulherão? A família inteira já sabia que eu era um babaca conquistador de primas em ponto de onibus. Minha vergonha ficou vagando por ali, mas eu voltei correndo pro anonimato da minha casa.

Você pode fazer o diabo pra evitar, mas os micos acham você. Essa aconteceu com um amigo. Ele tinha vestido o melhor terno e gravata para um entrevista de trabalho. A entrevistadora era a diretora da empresa, por sinal uma linda coroa, uns quarenta anos. Ele aguardava na sala de espera lendo essas revistas inevitáveis de sala de espera. Talvez em razão do pó que se acumulava por ali, meu amigo pressentiu que ia espirrar, mas foi um pouco tarde. O espirro chegou cheio de entusiasmo e o estrondo soou alto, deve ter sido ouvido na rua. Ele teve apenas o tempo de colocar a mão na frente do nariz. Depois, como pôde, fez discreta limpeza da área, verificando se não tinha sobrado remela por ali.

Diante da entrevistadora, a entrevista durou uns quinze minutos. No final ela perguntou: foi o senhor quem espirrou na sala de espera? Ele confirmou e completou que tinha certa alergia a pó, pediu desculpas. Sorrindo, ela apontou para a gravata dele e, de uma forma franca, perguntou: se o senhor não usa pérola na gravata é melhor limpar essa gosma teimosa que ficou pendurada, antes que lambuze o paletó. A despedida da entrevista foi desoladora, ela nem quis apertar a mão que ele estendeu.

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