17-06 – E A MARILDA NÃO FOI AO CINEMA

Pedro

Pedro Mattar

Ir ao cinema é um exercício complexo. Não basta decidir “vou assistir tal filme” e, pronto. Dependendo do dia, se for próximo ao dia cinco, quando sai o pagamento de salários, você tem que levar em conta vários fatores.  Se o cinema estiver dentro de um shopping, prepare-se para a multidão. Se estiver em outro local, prepare-se também.  Nas próximidades do dia cinco os assalariados decretam dia de festa, aquele em que podem separar um troco e proporcionar um quarterão com queijo aos filhos e à mulher. E de sobra uma sessão de cinema, por isso as filas.

Estou diante da bilheteria lotada e aguardo a minha vez. Peço pra namorada ficar na fila da pipóca, que dá volta no saguão de entrada. Escolho os únicos lugares que sobraram, fileira embaixo da tela. Decido relaxar, afinal é sábado e não estou afim de esquentar a cabeça.

Pipóca gigante na mão esquerda, refrigerante na direita e o bilhete de entrada na pontinha dos dedos que ficaram livres na logística de transporte.  Chego à primeira fila. Descubro que ela é mais próxima da tela do que imaginava lá fora.  O ângulo exige muito do pescoço, mas agora não é hora de desistir. Enquanto o filme não começa, melhor é se concentrar na pipóca e no papo desconexo com a namorada.

Três senhoras do banco de trás, parecem muito animadas, fazem comentários diversos e espero que isso cesse depois do inicio da sessão. Lembro de desligar o celular, como recomenda a boa educação e me preparo, pois a luzes estão sendo reduzidas

Começam aqueles filmetes normais que antecedem o filme principal. Os comentários das madames na fileira de trás não cessam. Bom, penso, quando começar o filme elas irão parar a conversa. O filme começa e os comentários das madames prosseguem. Tudo é motivo de comentário.  E o problema se avoluma quando a partir dos comentários somam vinculos com uma amiga delas, Marilda,  que não veio  e teria gostado de muita coisa se viesse. É o que as três garantem. Sem alternativa,  imagino a Marilda em casa, retida por algum bom motivo. Se tivesse vindo evitaria as recordações tardias sobre ela durante a sessão. E as madames prosseguem: a Marilda ia gostar disso, a Marilda ia gostar daquilo, ah, Marilda, que pena que ela não veio. Puta que pariu,  não é que minha namorada e eu estamos ficando íntimos da Marilda?

Chega uma hora que não dá. Sabe aquele olhar acusador quando a gente olha pra trás no cinema?  Sem dizer nada, diz tudo? Você sabe. Quase quebrei meu pescoço de tanta raiva e,  meus olhos devem ter brilhado no escuro feito um lince ferido. Meu olhar queria dizer: porra. Elas acusaram meu olhar ao mesmo tempo, as três. Travamos a linguagem dos mudos raivosos.  Mas isso não serviu pra bosta nenhuma.  Além de não cessar, a conversa entre elas  foi intensificada. Devem ter pensado: Pena que a Marilda não esteja aqui, esse sujeito ia ver só. Se vingaram falando coisas desconexas mas sempre ligadas à Marilda. Se a Marilda  estivesse aqui, pensei, a conversa seria ainda mais completa.

Decidi esquecer o filme. No escuro separei três reais que tirei do bolso, estiquei a mão para a fileira de trás e os entreguei à madame mais próxima.  Na supresa ela pegou o dinheiro e perguntou o que era aquilo.   Esclareci que tinha comprado ingresso para assistir o filme, mas me via na obrigação de pagar um adicional pela maravilhosa história paralela sobre  a Marilda. Pedi que transmitissem minhas lembranças a ela, ao mesmo tempo em que levantei e fui embora com a namorada.

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