16-09 – O ARIOVALDO E O BOLSA CÃO

Pedro1

Meu cachorro é um autêntico sem vergonha. Não tem o mínimo pudor de admitir que a crise que assola o país, em nada afeta o seu cotidiano. O Ariovaldo recebe o Bolsa Cão, um programa que implantei lá em casa. Na essência o programa exige que ele frequente uma escola de adestramento. Até tentei que cumprisse, mas desisti.

O Ariovaldo é o único cadastrado no programa Bolsa Cão. Mas ele já percebeu que o meu coração mole jamais deixará faltar aquela ração com a qual encho religiosamente a sua tijelinha particular, mesmo que não cumpra as exigências. Pode faltar comida no meu prato, mas no dele sempre haverá abundância. É a única razão que o torna fiel a mim.

Subiu a conta de luz, subiu a conta do condomínio, subiu o aluguel, subiu tudo, incluido o IPTU. A única coisa que diminuiu lá em casa foi meu poder de compra. O que era almoço passou a ser lanchinho, o que era jantar, passou a ser belisco e o refrigerante foi substituido pela água. De torneira. Mudou o cenário econômico, mas continuo mantendo meu programa sócio-canino doméstico.

Se alguém tiver que passar sacrifício dentro de casa, esse alguém será eu. Porque o Ariovaldo pensa o seguinte: por não votar, não tem culpa do que ocorre fora de casa. Sob essa ótica, a crise não é dele, é minha. Diante dessa evidência e na falta de argumentos, aceito resignadamente a missão de sustentá-lo, assumo a culpa por minhas escolhas. Eu, Pedro, não desisto nunca.

O interessante nessa história é que o Ariovaldo não é alienado. Poderia ser um cão marginal, desses que viram latas nas ruas, mas não, consegui afastá-lo desse risco. Ele não é um sem noção, assiste a televisão comigo, acompanha as entrevistas, os painéis, o noticiário e o que se passa no mundo. O Ariovaldo lê jornais comigo.

Aquele sorrisinho sarcástico dele é o que mais se ouve lá em casa. Outro dia um desses caras estava dando sua opinião ao repórter, falou uma porção de abobrinhas e, no final, o Ariovaldo deixou sair aquele chiado irônico no canto da boca, enquanto me olhava de soslaio. Caralho, fazia tempo que não usáva “soslaio”. Eta expressão fodida, só o Ariovaldo pra me fazer abrir o baú

Bom, continuando…. Ele sorriu, deu aquele olhar meio de lado que o torna mais sacana e balançou a cabeça, como se dissesse, sem dizer: “o mundo não tem jeito” .Eu fingi que não tinha percebido e nem ouvido sua gozação. Ele saiu no sofá dele e veio deitar a cabeça no meu colo. Toda vez que ele faz isso, ele quer dizer que está com dó de mim. Aceito, afinal eu mereço e sou digno de dó, assim como você que me lê.

Dada a minha idade avançada e a crise econômica, estou pensando em transferir o passe do Ariovaldo. Penso em assegurar o seu futuro, mas pretendo escolher alguém que inspire confiança, alguém que goste dele como eu, que consiga interpretá-lo e tenha saco de aguentar suas esquisitices. Se não for assim, ele não irá ficar puto com quem adotá-lo, mas comigo que o cedi. Não quero ser lembrado pelas pragas que o Ariovaldo me desejar lá no outro mundo. Ah, quem adotá-lo terá que manter o Programa Bolsa Cão, isso é inegociáve

Comentários

comentários