14-10 – ESSA MERDA QUE TODOS AMAMOS

Pedro1

Pedro Mattar

O Brasil é a prova cabal de que a gente gosta mesmo é de merda. Só isso explica porque amamos tanto este país e não o trocamos por nenhum outro. Os fatos mostram que a gente se acostuma a tudo, incluidas as sacanagens. E acabamos incorporando, por inércia, os anexos indesejáveis. Somos férteis produtores de massaroca gorobenta e indigesta. Essa regra serve para mim e você que está lendo. Somos o resultado de tudo o que digerimos goela abaixo.

A gente se acostuma com a mixórdia, se acomoda e acaba por descobrir que nossa indignação não passa de encenação. A sequência é a seguinte: no começo a gente se enoja com o cheiro. Depois fingimos revolta e berramos o grito de guerra, saimos às ruas, reclamamos na internet, nos coquetéis e nos bares, até concluir que é melhor cuidar da vida, já que nada elimina a meleca. A meléca simplesmente migra. Com a garganta rouca de discursos furados e conversa fiada, somos vencidos pelo desencanto e pela preguiça. Nesse meio tempo, nosso amado rincão prossegue produzindo dejetos institucionais.

Confortáveis no meio do caos, nos conformamos ao seu convívio. Não há mais saco e paciência de combater seja o que for. Desisto dos movimentos das ruas, consciente de que acabam cedendo ao movimento dos gabinetes.

Se você pensa diferente, me dê o endereço do seu planeta, vou agendar uma visita, quem sabe peço asilo. Porque é sempre bom saber que, em algum lugar, a esperança resiste. Não vou mais à praça pública exigir posturas e nem participar de marchas contra as imposturas. Não quero ficar com cara de besta quando uns poucos aumentam seus salários na mesma decisão que achata os da grande maioria.

Deveria evitar passar essa onda de pessimismo, isso não contribui para mudar coisa alguma. Deveria escrever que ainda existe merda melhor para todos. Ou dizer que o brasileiro é antes de tudo um merda ingênuo. Ou que a esperança venceu a merda, e por ai. Deveria escrever sobre temas propositivos. Mas não consigo, a inspiração me foge e o desencanto toma conta de mim. Não se trata só de uma questão política, tudo mescla com a questão humana, esse traço que repete os mesmos erros apesar de escancarados à nossa frente.

Há que se reconhecer nosso inquestionável talento para o desenvolvimento do cinismo, da cara de pau, independente da corrente ideológica que vigore. Governos se alternam mas são mantidos os princípios que inspiram a maracutaia. Eu, você e a maioria, por amor e preguiça, nos deixamos lambuzar pelo cenário. Apaixonados, não conseguimos nem puxar a descarga nas eleições. Somos cumplices estáticos, por não fazer porra nenhuma. Somos também a confirmação de que o amor não é apenas cego:ele é burro.

As opiniões e expressões usadas neste texto são fictícias e representam mera coincidência com improváveis fatos reais.

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