13-05 – Pedro Mattar – MALAS SEM ALÇA E AS TARDES DE DOMINGO

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Pedro Mattar

Pode até ser questão pessoal, mas se fizesse um levantamento de coisas que enchem o saco, numa pesquisa ampla, colocaria as visitas inoportunas das tardes de domingo entre as que mais pentelham minha paciência. Se você curte o hábito, fica este meu gentil aviso: vá encher o saco em outro canto, antes de pensar em me visitar domingo à tarde.

Até gosto de ser visitado pelos bons amigos, é um gesto de consideração, a gente atualiza a amizade e fica sabendo o que acontece longe dos olhos e dos ouvidos. Mas jamais em tardes de domingo. Não me lembro, revisando os micos que produzi, de nenhuma visita que tenha feito em uma tarde de domingo. Porque domingo é um ponto morto no meu calendário biológico, não serve pra porra nenhuma. Aliás, serve. Serve pra você mergulhar na escuridão e sumir no espaço desconhecido. Um bom almoço, uma ou duas caipirinhas e tchau. Acabou o dia. Amigos verdadeiros não fazem visitas nas tardes de domingo. Mas já aconteceu.

Imagine o cenário: domingo, três da tarde, eu prontinho pra embarcar na escuridão, olhos já fechados, engato a cabeça no ponto morto e deixo tudo rolar na banguela, quando…. toca a campainha. A primeira coisa que pensei, foi: não vou atender, tá decidido, vão imaginar que não estou em casa. Tentei ignorar, mas lembrei de um detalhe fatal, sou extremamente responsável: e se for alguma coisa urgente? Se morreu alguém muito chegado? Ou alguma coisa que justifique? É a mesma sensação de receber telefonema as três da madrugada. Alguém liga de madrugada pra anunciar boa notícia? E você deixa de atender?

Acabei levantando. Improvisei um shortinho e fui, torcendo pra que fosse qualquer coisa, menos visita. Dei de cara com o amigo muito querido, a mulher, o filho de cinco anos e a criança de colo. Seria uma surpresa maravilhosa, não ocorresse em uma tarde de domingo. Constrangimento visível, insatisfação atrás do sorriso, minha tarde de domingo apenas começava a ir pro saco. Casais com filhos pequenos não têm direito às mesmas expectativas que eu, nas tardes de domingo. Eles são impelidos a sair de casa em grupo, é a fórmula para fugir da gritaria e do choro interminável de crianças confinadas. Para eles é impossível dormir. Visitar os amigos é a opção mais prática. Fui eleito, ganhei na merda sena.

Tardes de domingo sempre pioram diante à expectativa da segunda feira. Ao dormir, nas noites de domingo, é comum apagar o dia seguinte da memória. Afinal, nada se compara ao descompromisso. Durante bom trecho da minha, vivi a obrigação de ligar pra casa dizendo onde estava, que horas iria (deveria) chegar, explicava com quem estava, descrevia o lugar e o nome dos amigos, enfim, aquele relatório tradicional de quem tem a rédea presa. Depois que me libertei das amarras, fiquei igual um barco à deriva no oceano revolto. Navegar nessa conjuntura tem um lado bom e tem um lado nem tanto. Na parte boa posiciono as tardes de domingo como um privilégio do descompromisso.

Livrar a cabeça de certas obrigações equivale à libertação de um regime de escravidão espontânea. Passar um bom trecho da vida pagando relatórios de atividades, cumprir agenda cerimonial e engulir sapos pra não complicar a relação, é o mesmo que sorrir enquanto se labuza de merda.

Tardes de domingo? Vem, não.

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