Violência fechou escolas em 68 dos 75 dias letivos no Rio

Jornal Extra / SF

Crianças pedem paz em escola no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro – Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

Os professores de uma escola municipal em Madureira já sabem o roteiro que acabará com as aulas. Primeiro são os fogos disparados pelos bandidos, anunciando a entrada da polícia na comunidade. Depois, os tiros. Automaticamente, todos vão para o corredor se proteger — cena cada vez mais comum no Rio. Até a última quarta-feira, só em sete dos primeiros 75 dias letivos do ano, todas as 1.537 escolas municipais funcionaram normalmente. Em 90% do período, pelo menos uma precisou interromper suas atividades por conta da violência.

— Se tiver incursão policial de manhã, não tem aula. Os professores não podem entrar, e a escola fica fechada. Normalmente, as crianças ficam mais agitados no dia seguinte — conta uma professora do 1º ano do ensino fundamental: — Quando já estamos na escola, protegemos os alunos. Muitos estão acostumados. Ficam apreensivos, só que, passando os tiros, já estão brincando, conversando. No início do ano, entrou uma menina nova que não morava lá. Na primeira vez, ela tremeu todinha e começou a chorar.

Neste ano, 320 unidades escolares já foram afetadas pelo menos uma vez pela violência e precisaram fechar; 104 mil alunos que perderam aula.

Em 2014 e 2015, foram 15 dias em que todas as escolas da rede funcionaram nos primeiros 75 dias letivos do ano. Em 2016, caiu para 14.

— Acredito que a violência esteja aumentando. Não só a violência de tiro, de bomba. Mas também uma violência dentro de casa. Violência doméstica, pai que bebe e bate na mãe. Isso dificulta nosso trabalho. São questões muito complexas — conta uma diretora de escola do Alemão.

Crianças fizeram cartinhas a pedido do Extra Crianças fizeram cartinhas a pedido do Extra Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

A ostensiva presença da violência no cotidiano infantil transforma o discurso das crianças. Em trabalhinhos sobre paz, produzidos a pedido da reportagem, as crianças da Escola municipal Walt Disney, no Complexo do Alemão, despejaram todos os seus medos: “Pare de atirar na gente”, pediu um menininho. “O povo tem que correr do tiro todo dia”, contou outra criança. Por isso, o EXTRA começou uma campanha para dar voz a essas pequenas vítimas invisíveis da violência na cidade.

Secretaria reunirá escolas para pedir paz

A Secretaria municipal de Educação do Rio organizou uma caminhada pela paz nas escolas. O encontro será realizado no próximo dia 2. “O primeiro momento da campanha é uma reflexão das próprias escolas diante de si mesmas, para que possamos construir lugares de paz — sem violência, sem racismo, sem preconceito, sem humilhação. Estamos chamando as nossas 1.537 escolas para a construção de lugares de paz no Rio de Janeiro”, informa a secretaria. O evento será realizado no Aterro do Flamengo.

— Tiro para eles (crianças) é a coisa mais comum do mundo. Visitar alguém na cadeia é a coisa mais comum do mundo. Eles passam por cima de alguém morto para chegar à escola — conta uma professora do Complexo do Alemão: — A escola, assim, vira um dos poucos pontos onde encontram uma realidade diferente. Isso é o que a gente tenta criar.

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