12-08 – A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO CARÁTER

Pedro

Pedro Mattar

“Então eu disse a ela: tá pensando oquê, que eu sou uma máquina de fazer dinheiro? Ela nem respondeu, saiu murmurando algo que não consegui entender e me deixou ali parado, sem ação. O eco da minha pergunta ainda flutuava na sala quando me dei conta de que ela já estava longe”.

Depois desse encontro só fui vê-la no tribunal, diante do juiz. Sai de lá bem mais pobre do que era e com intenções assassinas perturbando minha cabeça. Agora, passada a turbulência, não sinto mais falta dela, consegui me despreender daquela imagem que impregnou minha memória durante um bom trecho. Demorou, mas estou curado”.

Amigos leitores, essa introdução ai em cima é o inicio do livro que comecei a escrever e não continuei. Parei exatamente no último ponto final. Esse curto relato é ficcional, mas corresponde exatamente ao que poderia ter ocorrido num determinado momento da minha vida. Nada diferente do que deve ter ocorrido com milhões de semelhantes e confirma que a instabilidade é a pior marca da relações humanas. Um dia, tudo é felicidade, noutro tudo vira merda. Você dorme com uma pessoa maravilhosa e acorda com um dragão (ou dragoa) que solta fogo pelas ventas.

Não quero lambuzar o clima desta leitura falando de coisas desagradáveis, mas lembre que o mesmo céu de azul maravilhoso, pode se encher de nuvens assustadoras,de uma hora pra outra.  Se você não preparar o espírito para os altos e baixos, vai viver uma vida sujeita a trovões e desmoronamentos. Estar preparado para as instabilidades, pode até servir para evitá-las, mas duvido.

Tenho um mêdo pânico da inconstância. Viver um tempo razoável com alguém e descobrir , de uma hora para outra, que naquela figura delicada e gentil vivia, anônima, uma personalidade desconhecida, até então, é uma porrada que não dá pra encarar sem  bener pelo menos uma dose de coragem. Me declaro covarde para essas descobertas.

Tá certo que não fácil continuar sentindo o mesmo tesão, pela mesma pessoa, depois de repetir a mesma dieta durante anos. Mas porra, o mínimo que deve perdurar é o respeito. Pela cumplicidade, pela autoria conjunta de filhos, pela companhia solidária em momentos difíceis, pelas decisões a dois ou pelo compromisso de lealdade assumido. E, porque não, pelos orgasmos desfrutados enquanto a fogueira se manteve acesa. Isso não pode virar merda de repente. Mas vira.

Não vou ensinar o que você já sabe, mas não custa desabafar. Transformar o conjunto de momentos mutuamente assumidos, de forma consciente e espontânea, em ferrenha disputa judicial, é um desfecho que mela qualquer inspiração romântica. Entra nesse contexto a consistência do carater ou a própria fragilidade do mesmo.

A consciência de perder um tempo valioso de investimento pessoal, em alguém que não era exatamente o alguém pretendido, cria um vazio dificil de ser preenchido. Pior, qualquer tentativa de preencher esse vazio, posteriormente, será sempre um exercício de comparação. As vezes acaba dando certo. Outras vezes apenas servem como barreira para não repetir a mesma experiência. Viver é foda.

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