07-10 – MORTE AGENDADA E TOUR CELESTIAL

Pedro1Pedro Mattar

Meu médico confirmou que se tudo der certo, até o final do mês estarei morto. E despachado pelo sedex existencial. Provavelmente não estarei presente no esperado juizo final. Partirei sem saber se foi feito o acerto de contas entre os que tinham pendências com a lei e os bons costumes.

Brincadeirinhas a parte, não tenho nenhum medo de morrer. Entendo a morte natural como a reposição necessária. Faz parte do equilibrio ambiental. Tenho apenas preocupação com a dor. De resto acredito que a morte é justa, desde que ocorra sem burocracia hospitalar e trombadas nas esquinas, Morrer atende a substituição da espécie, como ocorre na fauna e na flora. Aqui entre eu e você, tem coisas que todo ser vivente deve ter autonomia pra decidir. Se o doutor recomendar químio ou rádio, pulo fora. Prefiro embarcar por minha conta, sem passar pela degradação que certos tratamentos implicam, em troca de algumas horas extras. De que adiante continuar vivo, sem desfrutar o prazer que a vida proporciona..

Sou amplamente favoravel à morte politicamente incorreta, a eutanasia, nos casos em que o indivíduo perde a validade. Vida vegetativa só serve pra satisfazer parentes e os mais chegados. Puro egoismo do entorno. Se depender da maioria dos médicos, eles irão prolongar sua “vida” até que o corpo desista por vontade própria. Nenhum doutor arrisca adotar o bom senso e a lógica e remar contra a corrente ditada pelo Conselho. Até dá pra entender, mas cada cidadão tem o direito de decidir até onde prolongar a sua vida. .

Se no além as coisas não forem como imagino (anonimato assegurado), eu volto. Ou tento. Arrumo um cargo de inspetor de nuvens e pego o primeiro cumulus, classe executiva, e peço que me desembarquem em algum país, de preferência nórdico. Digo nórdico porque é onde o inverno tem mais carater. Na cara dura roubaram este meu último inverno, que deve ter durado, no máximo, dois dias. Ontem fez quarenta graus e no calendário constava que ainda era inverno. Imagino o verão.

Com o dólar subindo mais que balão desgovernado, minhas chances de visitar países frios foram pro saco. Pensa bem: verão de oitenta graus e a energia elétrica custando oitenta por cento mais que antes? Vão deixar os condicionadores de ar envergonhados por funcionar a pleno. Se eu fosse comerciante de ar condicionado já estaria preparando o estoque, porque vem brasa mais adiante. Os ventiladores serão sopradores de ar quente na nossa cara. Já não somos um país tropical, somos bem mais que isso.

Se eu não conseguir morrer em tempo de evitar o intenso calor que o futuro promete, vou colocar em ação meu plano B (meus planos incluem quase todo abecedário). A ideia é começar mudando pra Patagônia. E, na medida em que for esquentando, vou descendo até o Polo Sul, a Antartida. Quando os glaciais de lá derreterem, meto uma garrucha na cabeça e viro comida de pinguim, se eles aguentarem até lá. Enquanto isso, nosso país confunde sistema econômico capitalista com canibalista.

Me ocorre uma pergunta: Vocês, leitores, sabem por que Urso Polar não come pinguim? Simples: urso polar só existe no Polo Norte e, pinguins, só vivem no Polo Sul.

Quando a cultura inutil se posiciona do meu lado, fico insuportável.
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