03-06 – OPORTUNIDADES INOPORTUNAS

Pedro
Pedro Mattar

Tenho enorme facilidade para línguas estrangeiras, falo oito, embora ninguém entenda nenhuma e o problema não é meu. Nas minhas andanças tenho me entendido com todo tipo de gente e jamais deixei de fazer alguma coisa por falta de comunicação. Nos Estados Unidos, quando quis comer um cachorro quente com muito molho de tomate, pedi: “me give um hot com essa coisa red”. Veio do jeito que eu quis, só um burro não entenderia.

Sobre o jeitinho brasileiro de ser, não adianta reclamar dos estrangeiros quando nos confundem com indios americanos quando tentamos falar inglês. Já presenciei carinha dando informação pra gringo, mais divertida que esclarecedora. O gringo chega com o papel e mostra o endereço ao primeiro nativo dando sopa na rua. Este diz: “Ah, Avenida Afonso Pena? é fácil. You (aponta o dedo no peito do gringo) , you go por ali, tá vendo?, por a-l-i (aponta a rua) e vai goiiiiindo toda vida…t-o-d-a- a- v-i-d-a. Entendeu? Chegando lá no up, dá um stop e vira à direita, certo? Entendeu, né? You dont desvia de rumo, ok? Olha aqui… é mais garantido pegar um taxi.. t-a-qui-ci,” E transfere o problema pro primeiro taxista que passa por ali, enquanto o gringo fica estático sem entender porra nenhuma.

Andar pelo mundo sem falar no mínimo inglês é um exercício de sobrevivência na selva. Você vira mímico. Explicar a uma recepcionista de hotel na Alemanha, que você precisa de mais um travesseiro, a menos que vocês esteja no quarto e tenha um travesseiro à mão, é tarefa de mágico ou contorcionista. Em Portugal, existem palavras que servem por lá, mas aqui significam coisas completamente diferentes. Isso porque falamos a mesma língua.

Viver é percorrer uma estrada abarrotada de surpresas. Quando você menos espera surgem coisas curiosas à sua frente, igual trens fantasmas. Essas surpresas acabam quebrando a rotina do seu trajeto. Algumas dessas aparições são dignas das melhores videocassetadas, onde tudo ou nada, antecipa o que irá acontecer. Nem sempre. Em Estrasburgo, num desses bondinhos que circulam pela cidade, em pé e segurando o apoio que vinha do teto, vi cair a calcinha de uma senhora bem à minha frente. Calcinhas podem e devem cair, afinal foram feitas para serem vestidas ou desvestidas. Mas, porra, logo no meio do povo?

No período em que frequentei a escola primária e as carteiras escolares acomodavam dois alunos cada uma, meu sonho era sentar ao lado do aluno mais bem arrumado da classe, um sujeitinho limpinho, roupas novinhas, cabelo penteado. O carinha era perfeito e tinha a cara lavadinha que só os riquinhos têm. Ele era tudo o que eu nunca fui e jamais serei. Lá no fundo da minha pobreza, sentar ao lado dele seria emprestar um pouco do charme que ele vestia. Seria a forma de confundir a inveja que eu sentia do seu estilo fashion. No dia em que houve um remanejamento na classe e acabei sentando ao lado dele, nesse mesmo dia ele teve um desarranjo e cagou na calça, bem ao meu lado.

Não existem limites para situações ridículas quando elas decidem se manifestar. Também não existem limites para os tamanhos que as situações ridículas assumem. Para evitar a lama e alcançar a calçada, fui atravessar sobre a tábua que alguém havia deixado por ali, enquanto chovia forte na praça cheia de gente. O escorregão veio forte e o tombo se encarregou de lambuzar minha bunda na lama. A praça inteira riu. Só o fato de ter caido já era vergonhoso. Mas quando o officeboy que passava caiu na gargalhada, sai correndo atrás dele. A vergonha que senti, que já era enorme, se tornou gigantesca. Mais que alcançar o sujeitinho, eu queria mesmo é sumir dali.

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